NÓS QUEREMOS SABER: MANIFESTO DE APOIO AO CENSO 2020*

No dia 22 de fevereiro, por ocasião da posse da nova presidenta do IBGE, Susana Cordeiro Guerra, o Ministro da Economia, Paulo Guedes, não garantiu orçamento para o CENSO 2020, sugerindo inclusive a redução do questionário sob o argumento de que “quem pergunta demais vai descobrir o que nem queria saber”.

Pois nós, do Departamento de Sociologia da UFPR, desejamos saber tudo (sobretudo o inesperado) acerca da realidade sócio-demográfica do país. E é por isso que escrevemos esse texto em apoio ao Censo 2020. Rigorosamente, desde 2015, o IBGE vem sofrendo atrasos no seu calendário de pesquisas. Um exemplo é o Censo Agropecuário que foi realizado com atraso de um ano, em 2017, e a Contagem Populacional, prevista para 2016 e que sequer foi realizada.

Estamos, pois, reivindicando o óbvio e essa parece ser uma tarefa inescapável nesse período tão obscuro da vida nacional. Apresentaremos um conjunto de motivos para a defesa do Censo 2020 em particular.

Em primeiro lugar, deve-se observar que os métodos de coleta de dados do Censo são insubstituíveis não apenas porque permitem uma comparação com a série histórica dos anos mais recentes, mas também porque, diferentemente de outros países, o Brasil não dispõe de informações administrativas sistemáticas e organizadas, constituindo o Censo a única alternativa de obtenção de dados desagregados por municípios e bairros. Nesse sentido, manter e sofisticar dados censitários é, entre nós, garantia de manutenção de padrões que possibilitam, inclusive, cotejamento internacional.

Considerando-se ainda que estamos em um país de escala continental, e que a cada dez anos o IBGE visita cerca de 58 milhões de domicílios em 5.565 municípios, não é possível subestimar a complexidade logística da operação censitária brasileira. Lembrando também que da qualidade dos dados dependerá o planejamento público nas esferas federal, estadual e municipal. Com efeito, o que muitos não sabem é que as informações do Censo fundamentam distribuições orçamentárias no campo da saúde, educação e economia como, por exemplo, os Fundos de Participação dos Estados e Municípios e o Fundo da Educação Básica. Por isso, não é possível dissociar o Censo das ações mais ordinárias do SUS (como a vacinação de crianças ou a estimativa acerca das zonas de risco epidêmico), sem esquecer da definição de políticas educacionais destinadas a incluir jovens e adultos que não aparecem nos dados escolares porque há muito tempo desistiram de estudar.

E, por fim, sim Sr. Ministro, o Censo permite verificar realidades que sequer sabemos e isso é importante para nossa capacidade de antecipar dificuldades e exigir maior atenção dos governos para problemas antes desconhecidos, relacionados ao adensamento populacional e mercado de trabalho, desigualdades de gênero na distribuição da renda e novas dinâmicas de distribuição da população de imigrantes (para, mais uma vez, citar apenas alguns exemplos referidos aos temas da especialidade de alguns dos docentes que compõe o nosso quadro).

Em resumo, defender o Censo é defender o conhecimento, o planejamento e o debate racional. Abrir mão disso é flertar com o arbítrio que aposta não apenas na ignorância, mas também na mentira como recurso para a ação política.

* Texto aprovado pela Plenária Departamental do Departamento de Sociologia da UFPR, na tarde de 26 de abril de 2019, no campus da Reitoria, em Curitiba.