ARTE, MEMÓRIA E NARRATIVA

A linha de pesquisa Arte, Memória e Narrativa tem por objetivo abordar as relações históricas entre artes, formas narrativas e cultura, particularmente no que compete às interconexões simbólicas entre, de um lado, a historicidade das linguagens, e de outro, os principais vetores morais, sociais e políticos presentes num determinado contexto. Para tanto, partimos de uma noção abrangente de “arte”, que envolve as mais diversas mídias e linguagens ficcionais, como as artes visuais, a fotografia, as histórias em quadrinhos, o design, o cinema, a literatura, a música, o teatro, a arquitetura e o urbanismo, pressupondo que há na linguagem não apenas um sentido de deleite ou de entretenimento, mas sobretudo de embate em relação às regras codificadas da cultura. Nesses termos, compreendemos que toda obra de linguagem situa-se no cruzamento entre a memória individual e a memória coletiva, estando portanto em relação íntima com seu tempo e com as condições de sua produção e circulação. Consideramos o processo de produção das artes e narrativas como um modo de significação e interpretação do mundo, capaz, ao mesmo tempo, de interferir nas convicções e percepções já estabelecidas sobre a realidade histórico-social. Da mesma forma, acreditamos que essa inserção histórica das artes e narrativas envolve a consideração e a análise das propriedades intrínsecas de cada linguagem estudada, o que implica em aceitar que as próprias formas de expressão ficcional possuem uma historicidade latente, tão relevante quanto as temáticas abordadas ou as suas eventuais circulações sociais. Assim sendo, a linha Arte, Memória e Narrativa abrange pesquisas de pós-graduação que abordam a interação entre história cultural e história das linguagens, com ênfase nos seguintes temas: arte e política; mídias, memória e patrimônio; imagem e ciência; narrativas desviantes (crime, loucura, marginalidade); teoria da história e historiografia.

CULTURA E PODER

As mutações ocorridas nas Ciências Humanas e Sociais nas últimas décadas contribuíram para novos questionamentos e abordagens em termos teóricos, metodológicos e epistemológicos. Abrindo espaço ao pensamento propriamente reflexivo, a linha de pesquisa Cultura e Poder valoriza a pluralidade interpretativa, a complementaridade dos opostos, a reabilitação do ator, da ação e do acontecimento, privilegiando, entre outras, as vertentes da História Política e da História Cultural. Voltada a uma abordagem histórica e historiográfica, a linha de pesquisa tem como premissa a concepção de que a Cultura é um patrimônio adquirido e que apresenta um resultado direto na preparação daqueles que exerceram distintas atividades políticas e sociais. Nesse sentido, o conceito de Poder encontra-se associado ao exercício efetivo, seja através do consenso, seja por meio da força, das autoridades individual ou coletiva, alicerçadas ou legitimadas institucionalmente. Para tanto, os detentores do poder podem lançar mão de diversos artifícios, como a propaganda, para alcançar as diferentes camadas sociais e culturais. Dessa forma, podemos observar o estabelecimento de relações de ordem política, social, econômica e cultural, que desvelarão a manutenção de princípios conservadores ou, por outro lado, reveladores de transformações, contestações e readequações no conjunto das sociedades históricas. Na busca pelo aprofundamento das pesquisas históricas que congregam uma plêiade de objetos que estabelecem a constituição de identidades e alteridades, como as línguas, os discursos, as imagens, as religiões, os mitos, as instituições políticas, a linha de pesquisa Cultura e Poder conta com professores-pesquisadores da Antiguidade Tardia, da Idade Média e das épocas Moderna e Contemporânea. Todos atuantes em grupos de pesquisa nacionais cadastrados pelo CNPq, como o Núcleo de Estudos Mediterrânicos (NEMED); História Intelectual, História dos Intelectuais e Historiografia; Poder e Sociedade na Península Ibérica tardo-antiga e medieval e finalmente Cultura e Poder, além de integrarem outros grupos de pesquisa no exterior.

ESPAÇO & SOCIABILIDADES

A Linha de Pesquisa ESPAÇO E SOCIABILIDADES dedica-se a temas e problemas de investigação articulados a partir de três eixos centrais. O primeiro refere-se às configurações humanas ou sociais, as quais são examinadas tanto em pequena escala – a paróquia, a corporação, a rede parental – como em escala ampla e de largo alcance, como o império colonial ou o Estado nação moderno. Tais configurações humanas ou sociais não são vistas como estruturas estáticas e imutáveis, dotadas de posições fixas. Antes, elas se alteram e se transformam processualmente, como formas dinâmicas de sociabilidades entre indivíduos e grupos, originárias de pactuações, alianças, deslocamentos populacionais ou de situações conflituosas, como conquistas, guerras e convivências forçadas. Dotadas de autonomia relativa, conformam sistemas que, ao mesmo tempo, acenam para o entrelaçamento entre sociedades espacialmente distantes. O mundo atlântico, os impérios coloniais e as dinâmicas espaciais de áreas específicas, como o Atlântico Sul, representam sistemas que articulam várias configurações sociais entrelaçadas. O segundo eixo de interesse diz respeito a uma periodização predominantemente demarcada por balizas cronológicas que partem do Antigo Regime, passando pela transição ilustrada até o liberalismo. Esta larga periodização permite o entendimento de estruturas historicamente caracterizadas pelas concepções ligadas à sociedade corporativa, plural ou compósita, pelas ligações humanas de tipo oligárquico, bem como por novas noções que apontam para a corrosão da ordem antiga, e para a emergência de novas relações e identidades familiares, étnicas, sociais, politicas, de trabalho e de soberania. As várias facetas da governação dos homens e das coisas, as representações da natureza, da sociedade e dos espaços, os modos de funcionamento de corpos sociais, as relações decorrentes do escravismo e das diversas modalidades de trabalho compulsório, bem como os movimentos e dinâmicas populacionais e das redes parentais são temas de interesse inscritos nos quadros dessa ampla temporalidade. O terceiro eixo de investigação refere-se ao espaço. Conquistado, povoado, despovoado ou repovoado, contabilizado, cartografado, administrado, arquitetado ou urbanizado, representado alegórica ou discursivamente, o espaço é visto como palco e produto das sociabilidades e configurações sociais ou humanas. Nada se processa sem ser através dele ou sem referência a ele. Independentemente de sua escala, de suas fronteiras, de sua topografia, o espaço engendra relações sociais ao mesmo tempo em que é engendrado por elas. Concretamente, este é percebido em sua dimensão efetiva nos vários territórios e formações geopolíticas historicamente construídos. Ele é também apreendido no nível capilar das sociabilidades cotidianas, ou seja, no âmbito da casa, da rua, da fazenda, da paroquia, da vila ou da cidade.

INTERSUBJETIVIDADE E PLURALIDADE: REFLEXÃO E SENTIMENTO NA HISTÓRIA

A Linha de Pesquisa Intersubjetividade e pluralidade: reflexão e sentimentos na História abriga pesquisadores que analisam as sociedades no tempo, suas rupturas e permanências, considerando tanto a emergência do sujeito como princípio e valor quanto a razão e os sentimentos enquanto dimensões da subjetividade que não obedecem a oposições binárias, nem são excludentes entre si, pois deles decorrem atitudes, práticas, linguagens e discursos, cuja efetivação se manifesta em espaços públicos e/ou privados. Nesta Linha de Pesquisa incorporam-se as inovações da Nova História Política e da Nova História Cultural, tendências que, orientando-se pelo debate pós-estruturalista, problematizaram as práticas e dimensões do poder e as identidades essencializadas e naturalizadas, procurando manifestações outras que não somente aquelas consagradas pelas instituições. Para tanto, são desenvolvidos estudos sobre os percursos históricos e historiográficos que fundamentam a construção teórica dos sentimentos, das identidades, das relações intersubjetivas, das sensibilidades, das relações de poder e da pluralidade social e cultural, nas suas diferentes modalidades discursivas, delimitações temporais e interfaces temáticas. Enfim, uma História comprometida com a democratização do poder, a consolidação de uma sociedade plural e com novas compreensões dos sujeitos e seus vínculos, entendendo a experiência como um constante recriar do passado e do presente.